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Fetuba: Teatro amor, teatro resistência

  • Foto do escritor: Carol Cadinelli
    Carol Cadinelli
  • 23 de abr. de 2019
  • 8 min de leitura

Atualizado: 27 de mai. de 2019

Ubá é uma cidade no interior de Minas Gerais. Com aproximadamente cem mil habitantes, a cidade é muito lembrada por sua indústria moveleira e, claro, pela manga Ubá. Contudo, sua popularidade vem crescendo cada vez mais em outro campo: o campo teatral.


Já em sua nona edição, o Fetuba – Festival de Teatro de Ubá - aconteceu entre os dias 17 e 21 de abril, movimentando a cidade durante o feriado da Semana Santa. Foram 30 atrações espalhadas pelos cinco dias de festival, que consiste em evento oficial do calendário do Circuito Minas de Teatro.


Esse ano, o festival homenageou Grazi Cordeiro, atriz ubaense que, atualmente, detém o recorde de premiações da cidade. Sediado no Fórum Cultural de Ubá e no Espaço Mutum, o 9º Fetuba atraiu artistas e público do Brasil inteiro para Ubá.


Representatividade Nacional


Entre dramas, comédias, shows de variedades, espetáculos de palhaçaria e peças infantis, o Fetuba conseguiu levar ao público muita riqueza em expressão artística e cultural. Diferentes cias, originárias de aproximadamente vinte cidades diferentes espalhadas por todo o país, iluminaram os palcos da cidade nos cinco dias de festival. As cidades mineiras compareceram em peso – cias de Juiz de Fora, São João Del Rei, São João Nepomuceno, Viçosa, Guaranésia, Barroso, Governador Valadares e Conselheiro Lafaiete apresentaram boa parte dos espetáculos. Juiz de Fora, sozinha, levou cinco espetáculos aos palcos do Fórum Cultural e do Espaço Mutum: a infantil ‘O Pescador, O Anel e o Rei’, da Cia Formô; o drama ‘Sobre Capitu’, da Cia Santa Corja; e o drama monólogo ‘Não Recomendado à Sociedade’, projeto independente dos artistas Gabriel Bittencourt e Felipe Ribeiro, foram atrações do dia 18, primeiro dia de programação integral do Fetuba. O espetáculo ‘Minha Morte’, da Cia Surto, foi encenado na noite do dia 20; e o ‘A Dona da História’, da Corre Cotia, ajudou a encerrar o festival, na tarde do domingo de páscoa.


Outros estados representados em peso foram Rio de Janeiro e São Paulo. Do Rio, veio a peça vencedora de Melhor Espetáculo do Festival e mais seis prêmios: a infanto-juvenil ‘O Quintal da Berta’, da Sintonia Dominó. Encenada no Espaço Mutum na tarde do dia 18, a peça conta a história de Berta, uma menina apaixonada pela natureza que se muda para uma nova casa e precisa contar com a ajuda dos pequenos animais de seu novo quintal para crescer um pomar e uma horta. Essa história é contada pelos amigos Nésia e Juazeiro, que levam ao público uma lição sobre companheirismo e cumplicidade na sequência de discussões sobre como contar e cantar a fábula.

Os atores Bruno Zukoff e Lílian de Mattos em cena, no Espaço Mutum. Foto: Carol Cadinelli

Além de ‘Berta’, o estado do Rio também trouxe ao festival mais seis peças. Entre elas, está o

drama ‘Notícias pelos Ares’, da Cia. Albatroz, que trata de forma intensa a questão do racismo, e recebeu menção honrosa do Júri pelo peso e relevância de seu tema. Também foram encenadas as peças ‘O Salto’ (Cia. Será o Benedito?), ‘Zé Petit e Minduim’ (Kamelo Produções), ‘Tirico e as Histórias e Morros e Fossos’ (Oficina Social de Teatro - vídeo abaixo),

‘Lisbela e o Prisioneiro’ (Cia Casa Verde), ‘Antes de Dormir’ (Cia. Gaia) e, encerrando o festival, ‘A Terceira Margem do Rio: A de Dentro’ (Cia. Letras de Rosa). Já de São Paulo, vieram três espetáculos, com destaque para o monólogo ‘Dias de Setembro’ (O Ator Maestro) e para o espetáculo de teatro e dança ‘Urrou’ (Cia. Mônica Alvarenga).


Mais de longe, vieram os espetáculos de palhaçaria ‘O Violinista Mosca Morta’, da Cia. Burlesca, de Brasília; e ‘O Melhor Espetáculo de Hoje’ – apresentado pela Cia. Os Barbacas, de Curitiba. Apresentado no sábado na Praça São Januário, sob o sol intenso da tarde ubaense, ‘O Melhor Espetáculo de Hoje’ recebeu os prêmios de Melhor Espetáculo de Comédia e Melhor Direção de Comédia, por uma performance envolvendo alto nível de versatilidade em palhaçaria e muita interação com o público.


Os Barbacas, encenando na Praça São Januário. Foto: Carol Cadinelli

Notas Sobre Capitu


E enquanto espetáculos de longe se sobressaíram em outras categorias, o juiz-forano ‘Sobre Capitu’ levou o prêmio de Melhor Espetáculo de Drama. Adaptado e dirigido por Gabriel Bittencourt, ‘Sobre Capitu’ é estrelado por Tainá Neves e Kaio Lara. A peça consiste em releitura do clássico ‘Dom Casmurro’, de Machado de Assis – contudo, a releitura não se restringe ao original. ‘Sobre Capitu’ traz a público a visão da icônica personagem título sobre sua história, abordando temas como o machismo, a violência doméstica e o racismo em sua trama.


“[a necessidade de repensar uma história clássica], veio daí, de a nossa atriz ser negra, de nós termos experiências particulares, atores e atrizes, que durante a suas vidas tiveram contato com algumas dessas questões, assim como a maioria das pessoas – a mulher que sofre com o preconceito, o fato de ser subjugada por ser mulher; a negra, que sofre racismo, velado ou escancarado, e é subjugada, e isso de uma forma jogada pra ela...”, comenta Kaio, ator da Cia Santa Corja. Kaio foi indicado ao prêmio de melhor ator de drama no festival e, além de interpretar o famoso Bentinho, também é parte ativa da produção criativa do espetáculo. “A violência contra a mulher também é um assunto bem complicado, mas eu já adianto que não é da boca pra fora que a gente fala na peça, existe uma motivação muito pessoal nossa de querer falar sobre violência doméstica. E aí surge essa necessidade que é do Santa Corja, e não do clássico do Dom Casmurro e nem da peça ‘Sobre Capitu’ em si. Nós temos necessidade de trazer pautas que movimentem a sociedade, que a façam repensar, e que são pautas muito persistentes.”


[O elenco de 'Sobre Capitu' se prepara para entrar em cena. Foto: Higor Siqueira]

Além de Melhor Espetáculo de Drama, ‘Sobre Capitu’ também foi ranqueado como Segundo Lugar Geral do FETUBA, e recebeu os prêmios de Melhor Figurino, Melhor Cenário, Melhor Direção em Drama, Melhor Atriz Coadjuvante (para Izabela Fidélis, no papel de D. Glória), Melhor Ator Coadjuvante (para Gabriel Bittencourt, no papel de Escobar). Ficaram também com as indicações para Melhor Ator de Drama (Kaio Lara, no papel de Bentinho) e Melhor Ator Coadjuvante (para Lucas Nunes, no papel de José Dias). “Essa é a nossa joia. É uma peça que consegue mexer com tanta gente, baseada num clássico, numa história gostosa de se conhecer, e com uma responsabilidade de discursos muito grande”, comenta Kaio; “A gente tem muita confiança no trabalho da gente, mas foi impressionante ver o quão bem aceito esse trabalho foi, em Ubá”.


[E para quem é de JF, uma boa notícia: está prevista, ainda sem datas confirmadas, uma nova temporada de Sobre Capitu em Juiz de Fora esse ano! (acompanhe @opicadeiroblog no insta pra saber em primeira mão as datas!)]


O Fetuba


E todo esse reconhecimento ao teatro de diversos lugares do Brasil nasce de um grupo de pessoas que buscam levar o amor pela arte mais além. O Fetuba é uma iniciativa coletiva, resultado de parceria entre diversas companhias ubaenses. Entre elas, estão: Cia DuoAvesso, Cia Rastro dos Astros, Cia Teatral Mutum, Cia Risada Livre Show, Casa do Teatro e Capacitor Cênico – Escola de Artes Cênicas, além de artistas voluntários independentes.


Sua primeira edição aconteceu em 2011, como uma retomada da Mostra Teatral Vicenza, que existia em Ubá e acabou em 2007, 2008. Desde então, já foram premiados mais de 100 espetáculos, e o festival vem crescendo mais a cada edição – só nesse ano, foram mais de 70 inscrições de espetáculos nas quatro categorias: Infantil, Comédia, Drama e Alternativo.

“A gente teve um trabalho muito grande na curadoria, pra selecionar os espetáculos, por conta da qualidade dos trabalhos enviados”, comenta Aurélio Pimenta, um dos coordenadores gerais do Fetuba; “[foram submetidos] Trabalhos de alta qualidade, primorosos; espetáculos premiados em todo o Brasil, espetáculos premiados internacionalmente, então foi muito difícil pra gente fazer a seleção desses espetáculos. E os selecionados desse ano foram um show, trouxeram espetáculos lindíssimos. Então a gente teve muita emoção, muita gargalhada, durante todo o festival”.


Todos os espetáculos contaram com lotação dos espaços cênicos. Foto: Carol Cadinelli

Para Aurélio, essa qualidade é um dos fatores que justifica o reconhecimento nacional, o sucesso de público e de crítica do Fetuba. Outro fator apontado por ele é a hospitalidade: “O Fetuba se tornou referência no circuito teatral brasileiro por conta do acolhimento com que os artistas são recebidos, e por conta da calorosidade do público. A gente tenta sempre fazer juz ao título que a nossa cidade carrega, de ‘Cidade Carinho’, e levar esse carinho pra dentro do festival, através do acolhimento dos artistas e do público”.


Atualmente, o festival conta com apoio do Governo Municipal de Ubá e do Governo Estadual de Minas Gerais, através do Circuito Minas de Teatro – que promoverá mais onze festivais de teatro esse ano, nas cidades mineiras de Guaranésia, Teófilo Otoni, São João Nepomuceno, Queluzito, Conselheiro Lafaiete, São Brás do Suaçuí, Mariana, Araguari, Barroso, Peçanha e Juiz de Fora. Os editais para os festivais estão sendo divulgados de acordo com suas datas, que vão de maio a novembro desse ano.


Além disso, o Fetuba também recebe apoio do comércio local. Esse apoio, que vem em forma de investimentos financeiros e permutas, também é de extrema importância para o funcionamento do evento, que movimenta a cidade de forma intensa durante os dias de sua realização, gerando retorno sólido para os comerciantes através da atratividade turística – pouco explorada em Ubá, em outras épocas do ano.


Recepção e Próximas Edições


A nona edição do Fetuba foi sucesso absoluto de público. Todos os espetáculos tiveram entradas esgotadas, e as filas mostravam a diversidade de audiência em cada peça, desde as infantis até os espetáculos alternativos. Além disso, o festival também foi sucesso de crítica, recebendo elogios tanto para os espetáculos quanto para a estrutura do evento – que ficou dividida entre o Fórum Cultural de Ubá, o Espaço Mutum, as praças São Januário e Guido Marliere, espaços que contavam sempre com presença massiva dos voluntários da equipe de produção. Além disso, a organização do festival ofereceu alojamento aos artistas no espaço da Escola Estadual Coronel Camilo Soares – amplo e bem organizado, possibilitando diversas atividades de oficina e troca entre as equipes -, e o diferencial de transporte gratuito para os artistas e convidados entre os diversos espaços cênicos. E, ao que tudo indica, essa estrutura só tende a melhorar!


Em 2020, o Fetuba comemora dez anos. “Pro ano que vem, a gente espera mais uma vez uma grande adesão dos artistas e do público. Vai ser a décima edição do festival, e a gente vai comemorar dez anos de amor, de luta, de resistência”, comenta Aurélio. “Então a gente quer, mais uma vez, uma chuva de espetáculos de qualidade pro nosso público, o público lotando os espaços cênicos pra prestigiar a experiência que cada artista vai estar proporcionando, e que a gente continue em crescimento constante nesse caminho que a gente vem trilhando”.


A décima edição ainda não tem data confirmada. Contudo, por toda sua trajetória, o Fetuba têm se consolidado de forma recorrente nos feriados da Semana Santa e do Dia do Trabalho, prolongados, na época de abril e maio.


Mesmo sem as datas, o Décimo Fetuba já está sendo produzido e já possui tema: “Com os dez anos, a gente resolveu homenagear o amor”, conta Aurélio; “Os homenageados de 2020 serão dois, um casal que faz parte da coordenação do Fetuba: o Cassiano Camisão e a Sueli Sanseverino, da Cia Teatral Mutum. A ideia é que, para os dez anos, a gente faça uma homenagem ao amor – o amor que une as pessoas, e que gera a arte -, por meio deles. E ele, o amor, vai ser o ponto primordial do festival de dez anos”.


Entendendo sua relevância no cenário cultural brasileiro e no processo de popularização da arte, o Fetuba se firma mais intensamente, a cada edição, como centro formador de público para teatro e de tradição teatral. Falando em nome da coordenação do evento, Aurélio demonstra sua satisfação com os frutos gerados pelo festival:

“Foi muito importante, pra gente, mais uma vez produzir o FETUBA, porque mostrou que mais uma vez, a nossa arte se faz resistente. E é esse o nosso objetivo, ser resistência, e espalhar amor – que é a nossa função como artista, levar isso ao nosso público. E, para ano que vem, a gente busca, mais uma vez, firmar a nossa resistência no cenário artístico nacional e internacional.”

Para saber mais sobre o Fetuba e acompanhar o festival de perto, confira a página deles no Facebook! E se você gosta de teatro e quer saber mais sobre o que acontece na cena de Juiz de Fora e Região, siga 'O Picadeiro' no Instagram!

 
 
 

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