Ator: Como chegar lá?
- Carol Cadinelli

- 10 de jun. de 2019
- 7 min de leitura
Atualizado: 23 de jun. de 2019

Contorno, tapotamento: o início da jornada do ator
“O Brasil sofre de um mal, que é a Rede Globo”, disseram muitos, em diversos contextos da história contemporânea. Claramente, isso também se aplica à nobre arte da performance; que aspirante a ator nunca ouviu da tia: ‘quero ver você na novela das oito, meu filho!’ Tia, pode ser difícil entender, mas atuar é muito mais que aparecer na novela! (não que alguém esteja recusando). Atuar é transformar o impulso em ação, tocar o público, roubar a pessoa de sua mente cotidiana.
O processo de se tornar um profissional dos palcos não é nada simples; demanda dedicação, paciência e muita prática. Muitos chegam até a recorrer à graduação em Artes Cênicas, que atualmente é oferecida em diversas universidades públicas do Brasil. Contudo, existem outros meios de começar a sua jornada como ator - através de cursos livres, oficinas, além da atividade mais básica de todas para quem quer conhecer e se aprofundar no teatro: consumir teatro. Para quem está de fora, pode parecer que não; mas produzir teatro requer estudo e atualização contínua.
E que tal começar agora, com esse post? Hoje, O Picadeiro traz pra você um pano de fundo sobre como produzir teatro e se tornar ator!

[1º Ato] O que (não) é ser ator?
Além das crenças como a da sua tia, que acha que só é ator quem está na televisão, existem também as crenças de que apenas pessoas com formação acadêmica ou com registro são atores de verdade. Em entrevista concedida aO Picadeiro em maio de 2019, os atores Felipe Moratori e Bruno Quiossa, da Sala de Giz, trazem uma visão um pouco diferente:
[2º Ato] Quotable: Mas e o talento?
“Eu não acredito só no talento. O talento tem que estar aliado a uma técnica, a um estudo. Eu acredito na técnica. A técnica supera o talento, na maioria dos momentos. Talvez o talento seja aquela coisa que te propulsiona, num primeiro momento, mas eu acredito que esse talento, em algum momento, ele se perde, vai esvaziando - à medida que outras pessoas, que não tem esse talento, passam a dominar as técnicas. O talento, por si só, não é nada, se ele não vier aliado a uma técnica. Acreditar nessa coisa de ter que ter um talento para fazer algo, é um pensamento que limita muito. Se eu tenho vontade de fazer uma coisa e disposição de aprender, eu tenho que estudar. E aí eu não preciso ter talento, só vontade. E aí a gente vai descobrindo as formas de se fazer." - Bruno Quiossa, ator e professor de teatro, em entrevista aOPicadeiro
“Talento, eu entendo como uma predisposição, uma facilidade em lidar com o material. O material de trabalho do teatro é a relação. Então quando eu olho pra alguém e eu vejo que aquela pessoa me convida a estar com ela, me convida para um jogo, me afeta, aí eu falo que tem teatro acontecendo com qualidade. E isso pode ser trabalhado. Então para eu desenvolver a minha capacidade de me relacionar, eu preciso ter esse afinamento do que sou eu, dos meus valores, meu gostos, meus afetos… Estar aberto a descobrir o que sou o eu potencial, não explorado; Então eu não posso entender um talento para o teatro se eu penso que sou uma pessoa conservadora, por exemplo. Eu tenho que entender que eu estou aberto a descobrir, e eu só vou descobrir isso em relação com o outro, o que que esse outro me causa.” - Felipe Moratori, dramaturgo, ator e professor de teatro, em entrevista aO Picadeiro
[INTERMISSÃO] Agora, uma pausa: fiquem com algumas curiosidades...

Histórico Breve
Séc. V a.c.: Primeira performance teatral da história, com o ator Thespis apresentando-se como os deus Dioniso em Atenas. O ator, nessa época, ainda era chamado de hipocritès (‘o fingidor’).
Império Romano: Em vista da preferência do povo por jogos violentos, atores buscam especializar-se em outras modalidades artísticas, como a música, a dança e a mímica - o que ainda se vê atualmente na produção teatral atual. 240 a.C.: O ator Titus Livius traduz e interpreta comédias gregas pela primeira vez em Roma.
Idade Média: Com a destruição de teatros no ocidente, atores passam a apresentar-se em feiras e aldeias, atuando como menestréis e trovadores. Fortalece-se a feitura do teatro de rua, no qual mulheres também participam. A Igreja é bastante restritiva ao teatro, tolerando apenas a produção de peças religiosas
1502: É apresentado, à corte Portuguesa, o primeiro auto do dramaturgo Gil Vicente. Seus autos religiosos viriam a inspirar os padres que trouxeram o teatro para o Brasil.
Renascimento: O ator volta a ocupar palcos e espaços cênicos considerados de prestígio, e deve readaptar sua técnica aos ambientes fechados e às diversas possibilidades de disposição do público.
1557: É apresentada a primeira peça de teatro no Brasil - Diálogo, Conversão do Gentio, do Padre Manoel de Nóbrega. Modernidade: É quando se começa a fazer filosofia em torno da função do ator. Diversos formatos novos são pensados para o teatro, levando-se em conta diferentes métodos de preparação do ator. O ator não é mais apenas uma pessoa que finge ser um personagem, mas sim alguém que domina sua própria expressão de forma direcionada, em processo constante de reflexão. Essa questão do ator é discutida por diversos estudiosos que ganham renome no mundo do teatro, como Constantin Stanislavski, Bertold Brecht e, no Brasil, Augusto Boal. 1838: É apresentada a peça O Poeta e a Inquisição, no Rio de Janeiro. Essa apresentação é considerada um marco para a produção de um teatro genuinamente brasileiro. 1925: É lançado o primeiro livro que compõe o sistema Stanislavski de preparação do ator, entitulado 'Minha Vida na Arte); 1938: O ator e dramaturgo Paschoal Carlos Magno cria, em São Paulo, o Teatro do Estudante, que dá origem a diversas companhias de pesquisa teatral;
1952: Estreia, em Londres, a peça 'A Ratoeira', de Agatha Christie. Atualmente, é a peça há mais tempo em cartaz, acumulando mais de 25 mil apresentações. 1978: O dramaturgo e pesquisador brasileiro Augusto Boal cria uma sede para as pesquisas de sua corrente teórica do 'Teatro do Oprimido'. Anos 2000: Peças estrangeiras começam a chegar ao Brasil, principalmente montagens nacionais de peças da Broadway, como O Fantasma da Ópera e Os Miseráveis.

Curiosidades Numéricas do Mundo do Teatro
4: São as modalidades mais gerais de preparação de atores, subsequentes às preparações iniciais - TV, Teatro, Cinema e Musical.
28: são os prêmios acumulados por Fernanda Montenegro, a Grande Dama do Teatro Brasileiro, por suas performances teatrais. Desses, 18 são prêmios de 'Melhor Atriz', sendo 7 Molières (premio extinto em 1998, considerado o Oscar do teatro brasileiro até então). + de 25 mil: É o número de apresentações da temporada mais longa de uma peça no teatro. A Ratoeira, de Agatha Christie, é apresentada desde 6 de outubro de 1952, em teatros da West End, em Londres, de forma contínua, até os dias de hoje. 7: É o número de cursos de graduação em Artes Cênicas no Brasil avaliados com nota 5 pelo Guia do Estudante.
R$500: É o preço médio de um ingresso para se assistir a uma peça na Broadway, polo teatral mais famoso do mundo, localizado em Nova York. 450 anos: É a idade aproximada da primeira peça teatral a ser representada no Brasil, de autoria de Padre José de Anchieta. 14: São os passos necessários para se produzir uma peça de teatro, de acordo com a WikiHow. Esse processo, contudo, pode levar anos, entre o início da preparação e a estreia da peça.
Fun Fact Nos países de língua inglesa, uma das formas de se desejar boa sorte antes de uma apresentação de teatro é desejar que o outro 'quebre a perna' (break a leg, em inglês). Já no Brasil, a forma mais autêntica de se desejar boa sorte antes de uma apresentação é dizer 'Merda'.
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[FIM DA INTERMISSÃO]
[3º Ato] A Pergunta que Não Quer Calar: Como saber se estou pronto para o teatro?
AMBIENTAÇÃO: Uma sala sem janelas, sala de giz. Uma mesa no centro. De um lado da mesa, estão Felipe e Bruno - atores há mais de dez anos, dramaturgos, diretores, idealizadores daquele espaço teatral, professores de teatro; do outro, a repórter que vos escreve.
Repórter: Vocês já falaram sobre talento, sobre propostas no teatro, e tudo acabou trazendo em si essa ideia de estar pronto. E aí eu pergunto: Como ficar pronto?
[Rapidamente, Bruno olha para Felipe]
Bruno: Você tá pronto? [Felipe olha para Bruno, hesita] Felipe: Eu... Eu não tô pronto. [ambos riem] Mas acho que é aquela coisa da utopia, né? É importante olhar pra lá. Eu não tô pronto, mas eu tenho que olhar para um lugar onde eu possa estar mais pronto do que estou hoje.
Mais do que tudo, eu acho que estar pronto é cada vez mais tirar de dentro pra fora. Tirar as cascas, tirar as máscaras. Descobrir o que está dentro. Estar pronto é estar cada vez mais associado com a ideia de que estou aqui, agora, fazendo isso. E afinar isso é muito sofisticado, muito difícil. Mas é uma busca.
[Felipe olha para Bruno]
Bruno: É. É uma sensibilidade de olhar as coisas ao seu redor, também, e de se perceber em determinados lugares, em determinados momentos. O Bruno hoje está pronto, acredito eu, para algumas coisas que há cinco, seis anos atrás, ele não estaria pronto. E o Bruno de daqui a dez anos com certeza vai estar pronto pra coisas que o Bruno de hoje não está. Essa busca é sempre constante. E é você conseguir olhar pra si, sensivelmente, e perceber: 'não, agora eu acho que eu consigo dar esse passo', ou 'não, não, acho que não posso ainda, porque me falta recursos técnicos, me falta conhecimento de mundo', enfim. E aí o que te ajuda a dar esse passo é quem está do seu lado, as pessoas te ajudam a ter essa percepção, essa sensibilidade. Entender que você não está sozinho ajuda muito a perceber se você está pronto ou não. Porque existe diálogo.

[4º Ato] Final Word
E no fim das contas, teatro é como comer e coçar: basta começar. Não importa como. Para quem se interessar em ir a fundo no teatro, Juiz de Fora possui diversos os espaços teatrais que oferecem cursos livres e oficinas, além de também ser possível cursar a faculdade de Produção Cênica na cidade. Em cidades maiores, as possibilidades são ainda mais diversas. Então, é hora de perder o medo e começar! Merda, pra você!
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